O Caos dos Postes no Brasil: Por Que a Solução Passa Pelas Redes Subterrâneas Graduais?

Fotos de um poste com diversos cabos de telecomunicações

Atualmente, um dos problemas visuais e estruturais que mais assola as cidades brasileiras é o emaranhado de fiações nos postes. Os antigos cabeamentos de cobre das empresas de telefonia tradicional já haviam deixado a rede aérea caótica. Para piorar, com a popularização da fibra óptica e a intensa concorrência no setor, a mudança constante de clientes entre provedores gerou um novo desafio: os cabos antigos raramente são removidos, acumulando-se nos postes por anos.

Com o tempo, a estrutura sofre desgaste. Basta que um isolador se solte para que um cabo fique ligeiramente mais baixo. Quando um veículo alto passa e arrebenta esse fio solto, o impacto acaba repuxando os cabos vizinhos que estavam na altura correta dentro da norma. Uma vez desalinhados, o próximo caminhão que passa arranca toda a fiação da rua, gerando prejuízos e interrupções no serviço.

Políticas Públicas Atrasadas: O Exemplo dos Novos Condomínios

As políticas públicas de urbanismo no Brasil estão muito atrasadas no que diz respeito à infraestrutura de telecomunicações. Posso citar um exemplo prático da minha realidade aqui em Ponta Grossa (PR).

Muitos condomínios novos e grandes empreendimentos imobiliários que ocupam quadras inteiras são aprovados sem que a prefeitura exija uma infraestrutura de tubulação subterrânea básica. Se essa exigência fosse feita no momento da obra, o custo de implementação seria cerca de 100 vezes menor do que o valor necessário para enterrar esses cabos em um futuro próximo.

Em um terreno com 500 metros de frente, por exemplo, o planejamento subterrâneo economizaria cerca de 10 postes. Além da óbvia melhoria estética, eliminaríamos o risco de cabos expostos ou perigosamente baixos.

Enterrar Cabos de Telecomunicações é Mais Simples do que Parece

Embora enterrar cabos de energia elétrica seja um processo complexo, caro e que envolve riscos de alta tensão, a realidade dos cabos de telecomunicações é completamente diferente. O processo exige apenas alguns tubos de 100 mm e caixas de passagem.

O grande erro das administrações públicas é tentar resolver o problema invertendo a ordem das coisas. Tentar intervir depois que as calçadas, o concreto e o asfalto já estão prontos gera um caos urbano imenso e encarece o projeto.

Existem tecnologias de Método Não Destrutivo (MND), onde máquinas realizam perfurações horizontais por baixo da terra sem a necessidade de cavar valas, lançando estacas por vários metros. No entanto, o custo desse equipamento e da operação é elevadíssimo. Além disso, há o risco de acidentes severos, como a perfuração de tubulações de água, esgoto ou o rompimento de fibras ópticas que já estejam enterradas na região.

A melhor alternativa é a transição gradual: novas obras e loteamentos deveriam ser legalmente obrigados a entregar a infraestrutura de tubulações e caixas de passagem prontas antes da pavimentação.

O Lado das Concessionárias de Energia

Outro fator importante nessa equação são as concessionárias de energia elétrica. Muitas alegam publicamente que o espaço locado nos postes para as empresas de telecomunicações não gera lucro expressivo. Na realidade, a arrecadação com o aluguel desses pontos rende milhões de reais todos os anos para as distribuidoras, o que deveria se traduzir em uma fiscalização muito mais rigorosa do alinhamento e da ocupação desses postes.

A “Poluição Invisível” e o Nosso Papel

Existe um fator cultural que torna o caos dos postes “invisível” para parte da sociedade. Embora a fiação aérea seja feia e fora do padrão, esse impacto visual muitas vezes empata com a falta de cuidado dos próprios moradores com as vias públicas. Mato alto nas calçadas, calçadas quebradas, lixeiras instaladas em locais proibidos, entulho acumulado e terrenos baldios abandonados poluem tanto a nossa vista quanto os fios.

A fiação aérea só receberá a atenção devida do poder público quando o cuidado geral com o urbanismo evoluir, afinal, as prefeituras costumam priorizar o que a população cobra mais ativamente.

Mesmo assim, não devemos perder as esperanças de ter cidades visualmente mais limpas e seguras. O custo de implantação de uma rede subterrânea é maior, mas o custo de manutenção é infinitamente menor, reduzindo os índices de rompimento a quase zero. Cabe a nós, como cidadãos e profissionais do setor, cobrar dos políticos locais leis que exijam infraestrutura subterrânea em cada nova obra aprovada na cidade.

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